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O Paraíso é Agora | Palestina | Hany Abu-Assad | 2005



Tão polêmico quanto arrebatador, "O Paraíso é Agora" (“Paradise Now”, Palestina, 2005), longa vencedor do Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim, dirigido por Hany Abu-Assad, foi o primeiro filme palestino a concorrer ao Oscar 2006 de Melhor Filme Estrangeiro, fato que gerou grande alvoroço e revolta, principalmente por parte de Israel. Houve, inclusive, petição enviada à Academia, alegando que a Palestina não era Estado e, por tanto, não poderia levar nenhum filme à esta categoria do Oscar. Enfim, o filme seguiu firme na disputa pela estatueta dourada como obra de nacionalidade palestina, ao lado de "Uma Mulher Contra Hitler" (Alemanha), "Segredos do Coração" (Itália), "Feliz Natal" (França), e do grande vencedor "Infância Roubada" (África do Sul). Tenso de tirar o fôlego e com as grandes atuações de Ali Suliman e Kais Nashif (o mesmo da ótima comédia "Tel Aviv em Chamas"), o filme gira em torno de dois amigos de infância que são recrutados para um atentado suicida em Tel Aviv. Quase duas décadas depois, "O Paraíso é Agora", que encontra-se disponível em streaming, segundo a jornalista Mariana Tessitore, é “um filme que precisa ser revisto no atual momento, no qual afloram tantos discursos de ódio e intolerância em relação ao outro”. Leia abaixo o texto completo de Mariana, publicado originalmente na revista Moviement.


Em tempos de intolerância, “Paradise now” é um filme essencial


Nesse ano que mal começou, Bélgica, Burkina Faso e Turquia são alguns dos países que já sofreram atentados terroristas. Infelizmente, não é impossível pensar que ainda acontecerão mais alguns até o fim do ano. Para nós que moramos no Brasil, é um tanto difícil entender o fenômeno do terrorismo (e especialmente dos homens-bomba), sem recair num maniqueísmo do “nós contra eles” ou em teorias questionáveis como a do choque das civilizações, defendida pelo economista Samuel Huntington. Pensando em tudo isso, lembrei de como o filme “Paradise Now”, dirigido pelo cineasta palestino Hany Abu Assad, continua atual e nos ajuda a entender um pouco mais as matizes dessa questão.

O lançamento de “Paradise now”, em 2005, gerou muita polêmica. O filme conta a história de dois amigos, Khaled (Ali Suliman) e Said (KaisNashif), jovens palestinos que são recrutados para um ataque suicida na cidade de Tel Aviv, em Israel. A obra foi indicada ao Oscar de melhor longa metragem estrangeiro, sendo o primeiro filme palestino a concorrer na premiação. A indicação gerou bastante repercussão. Israelenses que perderam seus filhos em atentados de homens-bomba fizeram uma petição exigindo que o filme fosse desclassificado. Outra petição pediu à Academia do Oscar que o filme não fosse apresentado como Palestino, alegando que tal Estado não existiria. Mesmo com toda a polêmica, o filme continuou na disputa do Oscar, mas sofreu com a censura, já que grande parte das cadeias de cinema israelense evitou exibi-lo, temendo boicotes. A questão que se coloca a partir dessa polêmica é: Por que “Paradise now” gerou e ainda gera tanto incômodo?

Na primeira sequência do filme, somos apresentados aos dois protagonistas. Eles moram na cidade de Nablus, na Cisjordânia, e vivem como pessoas comuns: trabalham, convivem com suas famílias, dançam e fazem piadas. No entanto, por volta dos vinte minutos, o diretor nos surpreende. Said está andando na rua e encontra com um homem chamado Jamal. Ele pertence a um grupo político e informa que a vez de Said e Khaled chegou. A organização decidiu se vingar da morte de alguns palestinos e escolheu os dois para cumprirem essa missão. Pela fala de Jamal, percebemos que os dois serão recrutados como homens-bomba. A surpresa se instaura. Como esses dois jovens, aparentemente tão convencionais, poderiam recorrer a um ato tão extremo? Esse talvez seja o maior mérito do filme de Hany Abu Assad (e o elemento que cause tanto incômodo): desconstruir o estereótipo de quem seriam os homens-bomba.

Para um público ocidental, acostumado com o mito do extremismo islâmico, a imagem do homem bomba é associada à ideia do fanatismo religioso. O ato de explodir a si mesmo nunca é visto num contexto mais amplo e sim como uma expressão do Outro, aquele que não compartilha dos nossos valores e por isso é capaz de tal brutalidade. O homem bomba é o oposto do cidadão civilizado. Hany Abu Assad evita meticulosamente esse estereótipo, mostrando o rosto, as expressões e os dilemas dos chamados terroristas, que se parecem tanto conosco. O terrorismo aqui é visto muito mais a partir de uma lógica política do que religiosa.


Khaled e Said, dois jovens comuns

Para entender um pouco as razões que levam os protagonistas a um ato tão desesperador, é preciso abordar rapidamente a política da região em 2005, ano no qual o filme foi lançado. Entre 1993 e 95, o primeiro ministro de Israel, Yitzhak Rabin, e o representante da OLP (Organização pela Libertação da Palestina), Yasser Arafat, assinaram os chamados Acordos de Oslo, nos quais estabeleceu-se que Israel deveria retirar-se da Faixa de Gaza, de Jericó e de algumas áreas não específicas da Cisjordânia, durante o período de cinco anos. A OLP formaria a Autoridade Palestina, responsável pelo autogoverno da área. No entanto, os acordos se mostraram uma falácia, já que a ocupação israelense, que já perdurava desde a guerra de 1967, continuou e, agora, com o consentimento das autoridades palestinas. A situação de Jerusalém e dos refugiados também não avançou. Outro dilema é que o governo palestino instituído pelos acordos, comandando pelo Fatah, envolveu-se em diversos casos de corrupção, distanciando-se dos ideais iniciais. Essa situação gerou uma insatisfação geral dos palestinos com as vias institucionais da política e com os acordos de paz. A saída legal foi desacreditada o que, consequentemente, levou a um processo de radicalização, com a vitória do Hamas, nas eleições de 2006, e com o aumento dos ataques de homens- bomba. Nesse contexto aparentemente sem saída, no qual a política institucional fracassou, o corpo aparece como único meio de expressão, impasse presente na vida dos protagonistas de “Paradise Now”.

Ao longo do filme, os personagens estão sempre correndo, andando em círculos a procura de respostas inalcançáveis. O longa tem um ritmo ágil, aproximando-se do gênero thriller. Essa edição rápida acentua justamente o desespero dos protagonistas, encarcerados em Nablus,uma cidade cheia de carros velhos e lixo pelas ruas, onde nada parece acontecer. Como sair dessa prisão espacial e temporal, enquanto o trauma do passado ainda sobrevive? Como resistir diante do fracasso da política e do próprio discurso dos direitos humanos? É nesse sentido que o corpo aparece como forma de resistência, a única maneira de manifestação possível, de chamar atenção para a situação insustentável que é viver nos territórios ocupados.

Porém, o filme não é uma simples defesa dos homens-bomba. O diretor revela suas nuances e contradições. Há uma cena exemplar na qual Khaled grava seu depoimento de despedida. Com a bandeira palestina nos ombros, ele segura uma metralhadora numa mão e o discurso na outra. Khaled está visivelmente desconfortável, não sabendo ao certo como segurar uma arma e como se portar diante da câmera. No vídeo, ele está representando o papel de um guerrilheiro, algo que, na realidade, não condiz com o seu cotidiano. O vídeo é, portanto, um produto de ficção. Khalid deve treinar mais para que o seu discurso se torne convincente, assim como uma campanha política deve convencer seus eleitores. Hany Abu Assad questiona, assim, como os próprios grupos políticos palestinos produzem a imagem estereotipada do terrorista que, posteriormente, será transmitida inúmeras vezes nos meios de comunicação do Ocidente. Não há guerra sem televisão, a imagem aqui substitui a realidade.

Nesse processo de banalização da imagem e da própria violência, o filme de Hany Abu Assad aparece como um contraponto, trazendo ao expectador uma visão muito mais complexa sobre a questão palestina do que a maioria das reportagens que abordam o conflito ou os vídeos com os depoimentos finais de homens- bomba. Nesse sentido, as palavras do cineasta israelense Amos Gitai, também um artista acostumado a abordar esse tema, são esclarecedoras: “O papel do cinema é mostrar uma realidade complexa e combater o bombardeio das mídias que vendem tudo em forma de cápsulas. Acho que o Oriente médio está cansado de simplificação, por meio do qual um dia os anjos são os israelenses e, no outro dia, os palestinos. Nessa região, há a maior concentração de câmeras do planeta, todas as grandes organizações de comunicação estão aqui presentes. Mas, ironicamente, isto é uma grande telenovela com um capítulo novo a cada dia (..) Nunca deveríamos aceitar a caricatura estereotipada um do outro, mesmo nos dias de mais amargo conflito. Se o cinema conseguir fazer isso, estará dando um grande passo na marcha rumo a uma forma de reconciliação entre os povos da região” [1].

Essa complexidade, a qual se refere Amos Gitai, está presente em “Paradise Now”, um filme que precisa ser revisto no atual momento, no qual afloram tantos discursos de ódio e intolerância em relação ao outro.


Clique abaixo para assistir ao filme, no streaming À LA CARTE

O paraíso é agora


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