ENTRE DOIS MUNDOS | EMMANUEL CARRÈRE | FRANÇA | 2021
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No drama “Entre Dois Mundos” (França, 2021), dirigido por Emmanuel Carrère, Juliette Binoche vive uma escritora que abandona o conforto de Paris para trabalhar como faxineira, em uma balsa no Canal da Mancha, e entender, de dentro, a vida dos trabalhadores precários. O filme adapta o livro-reportagem Le Quai de Ouistreham, mostrando com sensibilidade e honestidade a rotina dura e o vínculo humano que nasce entre colegas. É um olhar atento sobre trabalho, dignidade e mentira necessária. O filme encontra-se disponível no streaming À La Carte e recebeu muitas críticas elogiosas, como a que você pode ler abaixo, publicada originalmente na Revista de Cinema, na qual Maria do Rosário Caetano observa que “o resultado de ‘Entre Dois Mundos’ lembra os filmes de Ken Loach e dos Irmãos Dardenne, realizadores que costumam voltar suas câmaras ao registro de histórias da classe trabalhadora”. Confira abaixo o texto completo.
Crítica por Maria do Rosário Caetano
“Entre Dois Mundos”, protagonizado por Juliette Binoche, revela o talento do escritor Emmanuel Carrère também como cineasta

Juliette Binoche é a protagonista absoluta de “Entre Dois Mundos”, terceiro longa-metragem dirigido pelo escritor francês Emmanuel Carrère. A atriz, de 61 anos, empenhou-se de tal forma nessa adaptação do best-seller “Le Quai de Ouistreham”, de Florence Aubenas, que tornou-se uma de suas produtoras. Por ele foi indicada ao César, o “Oscar francês”, em sua quinquagésima edição, realizada em fevereiro último.
A protagonista de “Entre Dois Mundos” – estreia dessa quinta-feira, 29 de maio, no circuito de arte brasileiro – perdeu a estatueta para Hafsia Herzi, de “Borgo”, atriz franco-tunisiana, que acaba de participar do Festival de Cannes como diretora de “La Petite Dernière”. Que, por sua vez, rendeu a Palma de melhor atriz à sua protagonista, Nadia Melliti. A festejadíssima Juliette Binoche presidia o júri, o mesmo que atribuiu dois prêmios ao brasileiro “O Agente Secreto”.
O que mais chama atenção em “Entre Dois Mundos”, depois da presença estelar de Juliette Binoche, é que seu diretor, um dos escritores mais festejados da França contemporânea, esteja trabalhando com texto alheio.
Emmanuel Carrère já publicou dezenas de livros, muitos deles traduzidos no Brasil e recriados no cinema por diretores como Claude Miller (“A Classe da Neve”), Kirill Serebrennikov (“Limonov – O Camaleão Russo”), Nicole Garcia (“O Adversário”) e Philippe Lioret (“Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos: A Vida de Philip K. Dick”).
A estreia de Carrère na literatura se deu em 1984, quando publicou “Bravure”. Mas sua paixão pelo cinema já estava explícita em sua monografia acadêmica dedicada ao diretor alemão Werner Herzog. E, enquanto se dedicava aos estudos no campo da Ciência Política, escrevia críticas para as revistas Positif e Télèrama.
Poucos anos depois, já estava escrevendo, com parceiros, roteiros de telefilmes. À medida que sua fama como escritor ia crescendo, cineastas o procuravam para adquirir o direito de adaptação de suas narrativas literárias. E o convocavam para roteirização conjunta.
Só em 2003, o produtivo roteirista se tornaria diretor de cinema. E o faria com um longa documental, “Retour a Kotelnitch”. Filho de mãe com ascendência russa (e sovietóloga festejada), Carrère foi buscar suas origens maternas numa cidade pequena e distante (a 800 km de Moscou), Kotelnicht.
O romancista gostou tanto da experiência como diretor, que dois anos depois adaptou um de seus livros – “La Moustache” – para as telas. E convocou dois atores de imenso talento e respeitabilidade para protagonizá-lo – Vincent Lindon e Emmanuelle Devos. Mas gastaria quase 20 anos para assumir o comando de um novo filme, este que agora chega aos cinemas brasileiros. E que ele escreveu em parceria com sua então companheira, a escritora Hélène Devynck (o casal separou-se, envolto primeiro em desentendimentos conjugais, depois literários).

O resultado de “Entre Dois Mundos” lembra os filmes de Ken Loach e dos Irmãos Dardenne, realizadores que costumam voltar suas câmaras ao registro de histórias da classe trabalhadora. Carrère, que já mostrara desenvoltura em “La Moustache”, tem a chance, aos 67 anos, de ver seu filme – eleito o “melhor longa europeu” pelo público do Festival de San Sebastián – dialogar com plateias internacionais. Assim como seus romances, muitos deles best-sellers.
Juliette Binoche é a única estrela presente nos créditos dessa produção marcada pela sutileza. Atores com significativa experiência desempenharão pequenos papéis.
Carrère fez questão de trabalhar com elenco majoritariamente não-profissional, o que acentua a autenticidade da trama. As “atrizes” escolhidas são mulheres que, como suas personagens, trabalham fazendo faxina em ferryboats. Todas estão perfeitas nos papéis que lhes couberam, em especial, a jovem interpretada por Hélène Lambert (Cristèle). A que manterá relação mais próxima com Marianne Winckler (Binoche).
Marianne é uma escritora parisiense disposta a empreitada singular e difícil. Deixar o conforto de sua casa burguesa, em Paris, e se passar por trabalhadora braçal, disposta a madrugar para ganhar diárias como faxineira. Portanto, uma integrante do “precariado”, o novo proletariado urbano.
Ao trocar Paris por Ouistreham, na Normandia, ela irá, como suas novas companheiras, limpar banheiros nos ferryboats, aqueles que cruzam, diariamente, o Canal da Mancha.
O que a faxineira disfarçada deseja é conhecer em profundidade o mundo dessas diaristas, suas jornadas de trabalho, suas relações com os filhos, suas vidas com dinheiro contado. Marianne conseguirá desempenhar suas funções, acordar cedo e conhecer a dura realidade das trabalhadoras normandas. Entre elas, duas se destacam – além de Cristèle, a jovem Marilou (Léa Carne). As três cultivarão uma grande e afetuosa amizade. Por isso, será dolorosa, principalmente para Cristèle, a descoberta de que a “amiga” as observava como matéria-prima para um novo romance.

A sequência da revelação inesperada acontecerá dentro de ferryboat do qual não puderam sair devido a pequeno incidente. Amigos da escritora a reconhecerão, para perplexidade das colegas-faxineiras (nenhum spoiler, aqui, pois desde o início do filme, o espectador saberá que Marianne é uma escritora vinda de Paris).
Carrère filmará tudo com contenção e imagens de grande beleza. A partir da dolorosa e inesperada revelação, Marianne perceberá que chegara a hora de regressar a Paris para escrever seu novo livro. Que poderá transformar-se em um best-seller.
Como as faxineiras, que conviveram com a mentira da parisiense, vão reagir?
O filme adota final silencioso e em aberto. Sem nenhuma solução, ou apelação, redentora. Carrère, assim como Florence Aubenas, autora do romance que lhe deu origem, não realizou um filme para festejar a reconciliação de classes. E, sim, para mostrar a dura vida das faxineiras. E discutir a complexa relação de um romance (ou filme) com seus personagens, quando estes são gente de carne, osso e sentimentos.
Crítica completa aqui




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