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Antes do Anoitecer | Julian Schnabel | EUA | 2000

O americano Julian Schnabel estreou atrás das câmeras em 1996, tem apenas 6 longas até hoje, e todos fizeram sucesso! Afinal, ganhar 27 prêmios por meia dúzia de filmes, incluindo Melhor Diretor em Cannes, não é pouca coisa, certo? O seu segundo filme, "Antes do Anoitecer"(2000), traz Javier Bardem em atuação indicada ao Oscar, interpretando o escritor cubano Reinaldo Arenas, numa emocionante história de perseguição, desafio e coragem. Na ocasião do Oscar 2001, o jornalista e escritor Bernardo Carvalho escreveu para a Folha sobre “Antes do Anoitecer”: “A vida e a obra de Reinaldo Arenas associam liberdade e minoria. O filme de Schnabel não podia ser mais fiel ao escritor ao dar a entender que a liberdade é sempre resistência, por ser o oposto do consenso”. Leia a seguir o texto na íntegra.


OSCAR 2001 "ANTES DO ANOITECER" Longa de Julian Schnabel faz autobiografia do perseguido escritor cubano Reinaldo Arenas Busca por liberdade vira forma de resistência

BERNARDO CARVALHO COLUNISTA DA FOLHA


A julgar pela sua recente e inspirada carreira de cineasta, o americano Julian Schnabel, 50, "enfant terrible" do mercado de arte nova-iorquino nos anos 80, tem uma queda pela vida de artistas. Seu filme de estréia, "Basquiat", de 1996, contava a história trágica do pintor Jean-Michel Basquiat, morto em 1988, aos 28 anos. "Antes do Anoitecer", seu segundo filme, premiado no Festival de Veneza, é baseado na extraordinária autobiografia do escritor cubano Reinaldo Arenas (1943-1990), publicada em 1994 pela Record com o título "Antes Que Anoiteça". Schnabel faz da vida de Arenas (interpretado pelo excelente Javier Bardem, indicado ao Oscar de melhor ator pelo papel) uma representação da liberdade. Na medida em que a liberdade não pode ser concebida em si, mas apenas em contraposição à sua falta, pelo que ela não é. "Antes do Anoitecer" confirma a idéia de que, quanto maior a originalidade da obra, maiores as chances de o artista ser ignorado ou perseguido e de sua vida se tornar um inferno. Arenas pagou caro por seus livros não serem iguais aos outros: o exercício da sua liberdade foi a sua condenação. Nascido numa família pobre, o escritor passou a infância no campo, aliou-se aos rebeldes revolucionários na adolescência e acabou tornando-se uma figura indesejável sob o regime de Fidel, ao mesmo tempo em que escrevia, às escondidas e sem conseguir publicar em Cuba, obras-primas como "O Mundo Alucinante" (1966). Perseguido por ser homossexual declarado, enquanto funcionários e autoridades do regime faziam o que queriam por baixo do pano, Arenas passou um ano na prisão em 1974 e mais outro num campo de trabalhos forçados. Em 1980, conseguiu embarcar para a Flórida, entre "outros homossexuais, delinquentes e doentes mentais", no chamado êxodo do porto de Mariel. Doente de Aids, suicidou-se dez anos depois, em Nova York, onde também não encontrou a liberdade. A maior originalidade do filme de Schnabel foi servir-se da autobiografia do escritor para filmar a liberdade como impossibilidade trágica da qual o artista não abdica apesar de tudo. Em 1987, ao tentar definir por que escrevia, Arenas declarou ao jornal francês "Libération": "Seguimos (...) alguma coisa misteriosa que desejamos dominar e à qual -precisamente por ser impossível- dedicamos a nossa vida. (...) A arte só pode estar engajada com a liberdade; (...) em essência, quase todo escritor é um dissidente". Logo na primeira parte do filme, quando o jovem autor encontra José Lezama Lima, um dos maiores nomes da literatura cubana do século 20, o escritor experiente lhe diz sobre o regime castrista: "A beleza é o inimigo, porque é ingovernável". E não é um mero acaso que a extraordinária liberdade que a obra de Arenas manifesta e exige seja imediatamente relegada a segundo plano quando lhe outorgam uma menção honrosa e não o prêmio principal no concurso em que inscreve seu primeiro romance. A vida e a obra de Reinaldo Arenas associam liberdade e minoria. O filme de Schnabel não podia ser mais fiel ao escritor ao dar a entender que a liberdade é sempre resistência, por ser o oposto do consenso.

Antes do Anoitecer

Before Night Falls

Direção: Julian Schnabel

Produção: EUA, 2000

Com: Javier Bardem, Olivier Martinez, Andrea di Stefano, Johnny Depp


Clique no link abaixo para assistir ao filme: https://www.belasartesalacarte.com.br/antes-do-anoitecer


https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1603200110.htm


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