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FIQUE COMIGO | SAMUEL BENCHETRIT | FRANÇA | 2015


Isabelle Huppert no filme "Fique Comigo"


Encontros improváveis que trazem ternura, humor e compaixão a um mundo de alienação urbana. É o que acontece nesse condomínio no subúrbio parisiense, um prédio simples e tranquilo, habitado por pessoas muito discretas, mas, com cada história! Já pensou ser vizinho de uma misteriosa atriz de cinema? E se essa estrela for Isabelle Huppert? Ela e mais um elenco afiadíssimo encantam o espectador em "Fique Comigo" (França, 2015), filme dirigido por Samuel Benchetrit, disponível no streaming À La Carte. Entre nomes conhecidos, como Valeria Bruni Tedeschi e Michael Pitt, também merece destaque o jovem novato Jules Benchetrit (filho do diretor com a falecida atriz Marie Trintignant), que ainda deve ser reconhecido como um dos talentos mais promissores da nova safra de atores franceses. Mas, para os fãs incondicionais de Isabelle Huppert, não tem jeito, é realmente ela o principal chamariz desta obra tão singela quanto charmosa e humana. Referindo-se à atuação de Huppert, o crítico Robledo Milani, em crítica de "Fique Comigo" publicada no site Papo de Cinema, diz o seguinte: "Em cena presenciamos uma atriz tendo que viver alguém que não mais sabe atuar, ao mesmo tempo em que redescobre o que havia esquecido. Excelência é o mínimo a ser dito. Percepção, aliás, presente do início ao fim desta pequena pérola iluminada dentre uma floresta de asfalto".


Crítica

Por Robledo Milani


Cena do filme "Fique Comigo"


Seis pessoas absolutamente sozinhas, porém em insuspeito estado de ansiedade por conexão com um próximo, compõem o centro da ação de Fique Comigo, drama francês do diretor e roteirista Samuel Benchetrit. Mais conhecido como ator (As Moças, 2014), ele demonstra uma tocante sensibilidade neste trabalho, principalmente por sua habilidade em conseguir ofertar três encontros absolutamente improváveis, porém reunidos de maneira tal que soam perfeitamente plausíveis. Porém, melhor ainda do que os meios escolhidos até a formação de cada um destes cenários, está na delicadeza de sua narrativa o maior mérito da produção. Afinal, muito pouco precisa ser dito para que o tanto necessário fique evidente.

Na primeira cena de Fique Comigo, uma reunião de condomínio discute a necessidade de trocarem o elevador do prédio por um novo e mais moderno. Um ficou preso dentro dele por horas, outro levou um choque ao apertar um dos botões... enfim, motivos para a substituição não faltam. Em uma rápida votação, todos se manifestam a favor da mudança – com exceção do desajeitado Sterkowitz (Gustave Kerven, de Em um Pátio de Paris, 2014). Timidamente, ele explica que não vê sentido em também ter que desembolsar, uma vez que mora no primeiro andar e nunca usa o aparelho. Ainda que relutantes, os demais acabam concordando com seus argumentos, desde que a partir de então fique proibido de usar o novo elevador, sob qualquer circunstância. Ele concorda com a imposição, e daquele momento em diante se torna um pária, excluído de todo e qualquer círculo social próximo. A questão é que logo em seguida sofrerá um acidente e precisará recorrer, ainda que apenas por algumas semanas, ao uso de uma cadeira de rodas. E agora, como fazer?


Cena do filme "Fique Comigo"


São questões como essa que motivam o enredo imaginado por Benchetrit. Estas pessoas pensam apenas no hoje, mas ao se depararem com o amanhã se veem obrigadas a revisarem seus conceitos. Um atriz de talento (Isabelle Huppert), porém já no ostracismo, ensaia uma volta ao estrelato, mas para isso precisa vencer seus próprios demônios interiores. Um garoto (Jules Benchetrit, filho do diretor e visto antes em Um Reencontro, 2014) órfão de pai e mãe leva uma rotina e total desapego, em busca de uma motivação. Uma senhora (Tassadit Mandi, de Dheepan: O Refúgio, 2015) emigrante da Argélia passa os dias contando o momento de ir visitar o filho na prisão. Uma enfermeira (Valeria Bruni Tedeschi) tem como único momento de sossego os instantes em que se refugia nos fundos do hospital para fumar seu cigarro, longe de todos que dependem dela. E um astronauta norte-americano (Michael Pitt) cai do espaço literalmente em um teto de Paris, sem saber como nem por quê, enquanto fica à espera de alguém que venha resgatá-lo.

A mulher já muito vivida dará abrigo ao estrangeiro, que tanto poderia vir dos céus como do estrangeiro, como ela um dia veio. O homem que se recusou a colaborar com os vizinhos se vê, ainda que por acaso, encontrando uma nova chance ao se deparar com a estranha que passa por situação semelhante a sua. E a veterana dos palcos percebe que talvez esteja no jovem ao seu lado a chance de poder se reinventar. Tudo é muito minimalista, quase imperceptível. Mas cada uma dessas ligações se dará de modo tão cirúrgico que uma vez estabelecidas sua força será imensa. Um bom exemplo é a sequência em que o rapaz tenta explicar a sua nova amiga como ela deve atuar sem artificialismo ou impostações. Huppert, totalmente desprovida de muletas ou pontos de apoio, entrega uma performance poderosa e comovente. Em cena presenciamos uma atriz tendo que viver alguém que não mais sabe atuar, ao mesmo tempo em que redescobre o que havia esquecido. Excelência é o mínimo a ser dito. Percepção, aliás, presente do início ao fim desta pequena pérola iluminada dentre uma floresta de asfalto.


Cena do filme "Fique Comigo"






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