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ENCONTRO COM O DITADOR | RITHY PAHN | FRANÇA | 2024

  • Foto do escritor: filmescults
    filmescults
  • 15 de jun.
  • 4 min de leitura

O cineasta Rithy Panh retorna ao tema que marcou sua obra: o genocídio cambojano e a cegueira ideológica que o sustentou. Em “Encontro com o Ditador” (França, 2024), três jornalistas franceses tentam entrevistar o líder dos Khmer Vermelhos e, ao longo da viagem, veem a propaganda do regime ruir diante de seu olhar crítico e desconfortável. A crítica em português do Lagoa Nerd destaca o retrato cruel da censura e manipulação, além da importância de manter viva a memória dos horrores perpetrados. O filme equilibra ficção e história real, colocando o espectador frente à falácia de utopias totalitárias. Leia abaixo o texto completo e não deixe de ver esse ótimo filme, disponível no streaming À La Carte.


Crítica por Equipe À La Carte


CRÍTICA / ENCONTRO COM O DITADOR

Indicado pelo Camboja ao Oscar de Melhor Filme Internacional (mas não chegou à lista final), o filme do cineasta Rithy Panh estreia nos cinemas brasileiros em 2 de janeiro (no Brasil), com distribuição da Pandora Filmes.


Por Lagoa Nerd



“Encontro com o Ditador” foi meu último filme de 2024 e será minha primeira crítica de 2025. Começa com um bom filme de um lugar diferente, o Camboja.

 

O Camboja sofreu graves consequências da guerra em seu país vizinho, o Vietnã, que levou à ascensão de um dos regimes mais atrozes e sombrios do país, o Khmer Vermelho, liderado pelo ditador Pol Pot.

 

Num mundo diverso, repleto de grandes histórias reais, algumas mais conhecidas do que outras (como a Segunda Guerra Mundial), é bom ver filmes que retratam um lado da história mundial não tão antigo, mas sombrio e nebuloso, como o que Rithy Panh faz com seus filmes e seu novo longa-metragem, baseados em fatos reais e históricos que precisam ser contados para que não sejam esquecidos.

 

Em seguida, avançamos para o final da década de 1970 no Sudeste Asiático, no Camboja, quando três jornalistas franceses desembarcam de um avião para encontrar e entrevistar o ditador Pol Pot, do regime do Khmer Vermelho (a convite dele), responsável por orquestrar um dos maiores crimes contra a humanidade do século XX, no qual quase 2 milhões de pessoas foram mortas.

 

O filme é vagamente inspirado no relato da jornalista Elizabeth Becker em seu livro "When The War Was Over" (Quando a Guerra Acabou).

O que Pol Pot e seu regime queriam era apresentar uma fachada de propaganda enganosa sobre o que estava acontecendo no Camboja e criar uma cortina de fumaça para encobrir a realidade interna do país. Para isso, impuseram censura aos três jornalistas franceses, restringindo-lhes as perguntas, as fotografias, as reportagens e as publicações, de modo a fazer com que o mundo exterior os visse como um governo favorável à comunidade.



Embora o filme se passe no Camboja, o idioma utilizado não é o khmer (língua oficial do país), mas o francês, visto da perspectiva dos jornalistas franceses, o que, em alguns momentos do filme, se revela uma grande barreira de comunicação, porém utilizada intencionalmente.

 

*A título de curiosidade, o francês também era uma língua amplamente utilizada e falada no Camboja durante o período colonial, e continuou a ser usado até meados do século XX.


O filme lembra um pouco Guerra Civil (Alex Garland) ou The Post: A Guerra Secreta (Steven Spielberg) do ponto de vista dos jornalistas, mas com um orçamento muito menor e menos "ação".

Como não estou familiarizado com a filmografia do diretor Rithy Panh, sei que outro de seus filmes foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2014, chamado "The Missing Image", e que em "Encotro com o Ditador" ele também usou algumas das mesmas técnicas de antes, como recriar momentos e diálogos usando imagens de argila, o que também pode ser visto nos trailers.

 

Ao longo da história, os jornalistas realizam suas pequenas investigações, fazendo perguntas aos soldados, e a cada descoberta, o horror e o medo crescem sobre eles, assim como o perigo iminente de encontrar o ditador. Nem mesmo Alain, o jornalista, que até então era um bom conhecido e até considerado amigo do ditador, desde a juventude em que estudaram juntos, escapa a essa percepção, mesmo que leve um tempo para que ele a perceba.

 

E é por meio dele que uma das cenas mostra um livro sobre uma mesa no suposto quarto do ditador, chamado "O Contrato Social", de Jean-Jacques Rousseau.

Para Rousseau, o homem nasce bom e a sociedade o corrompe; em outras palavras, ao longo da história, o homem se torna mau, com o objetivo de prejudicar os outros.

 

Isso demonstra a psique perversa de Pol Pot e seu regime ditatorial, bem como sua impenitente postura em relação às suas ações contra a população, visto que ele não tolerava opositores e críticos de seu governo, e aqueles que se opunham a ele precisavam ser eliminados (os intelectuais foram os primeiros).

 

A tensão aumentou à medida que os jornalistas eram cada vez mais censurados e silenciados, sinalizando uma tragédia que já havia sido anunciada e já estava acontecendo.

Apesar disso, o filme não é expositivo, deixando mais espaço para interpretação, e como o orçamento era muito baixo, também fica muito claro o que estava acontecendo, mas em uma escala muito menor do que os fatos reais.

 

Outro ponto fraco é que a cinematografia não é das melhores, com imagens um pouco mais escuras e não tão nítidas quanto poderiam ser.

 

“Encontro com o Ditador” é um retrato cruel, perverso e pouco conhecido que também expõe a censura e o silenciamento da imprensa, local ou estrangeira, por regimes ditatoriais, que tenta mostrar o que realmente aconteceu e não o que foi apresentado como fachada – um filme muito interessante de se assistir.



Crítica completa aqui

 
 
 

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