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Diário de Cannes – balanço da competição

18.07.2021

Por André Sturm, presidente e curador do Belas Artes Grupo


Foram quase duas semanas de tapete vermelho, expectativas, reações variadas e filmes, muitos filmes. A volta do Festival de Cannes, ao vivo e a cores, marcou a retomada dos eventos presenciais. A seleção oficial tinha filmes de cineastas veteranos, conhecidos, em ascensão e novatos. De forma geral, foi uma seleção que agradou. Não havia nenhum filme marcante, daqueles que serão lembrados em destaque, como “Parasita” na última edição. Ou um filme maduro de um cineasta já consagrado, como “Tudo sobre minha mãe” de Almodóvar, há alguns anos. Uma surpresa inesperada como “Toni Erdmann”. Ou uma consagração como “A Grande Beleza”. A maior parte dos filmes teve boa recepção, alguns dividiram opiniões. Alguns decepcionaram. Nos dias de hoje, com todas as regras e a censura, é muito difícil certos filmes, que atendem aos cânones serem destruídos, como em outros tempos. Qualquer palavra mais forte, já causa “ofendimentos” e reações terríveis. Desta forma, com raros exemplos, as críticas foram muito condescendentes. Alguns destaques, na minha opinião:



- “Drive My Car” do japonês R. Hamaguchi foi o melhor filme. A partir de uma curta história do consagrado escritor Haruki Murakami, Hamaguchi criou um filme simples e genial. Obra de um cineasta que tem algo a dizer e sabe utilizar a linguagem cinematográfica. Não para se exibir como virtuoso, mas para oferecer ao espectador uma obra de arte. Mostra como se pode tratar de assuntos relevantes, sem fazer cinema ativista e panfletário. Sem ser uma obra prima, é um excelente filme.



-“A Hero” do iraniano A. Farhadi. Depois de sua “aventura” num filme europeu não tão bem sucedido, ele retorna ao Irã e faz outra obra madura e potente. Um grande cineasta, um belo filme.


-“Compartment 6” do finlandês J. Kuosmanen. Duas pessoas diferentes, numa mesma cabine de trem, numa longa viagem. Muitas sinopses como esta. Ele consegue fazer um belo filme, temas atuais, embalados numa boa narrativa, excelente direção. Para mim, uma boa surpresa.


-“The Worst Person in the World", do norueguês Joachim Trier. Cineasta que já tem uma obra consistente e que a gente, de certa forma, sabe o que verá. Ele não surpreendeu, nem decepcionou. Uma história de amor contemporânea, com suas questões. Desempenho maravilhoso da atriz principal. Ele não pretende fazer uma obra prima, mas sabe fazer um bom filme.



-“Nitram”, do australiano J. Kurzel. Uma pancada. Baseado na história real de um jovem que cometeu o pior massacre na história da Austrália, quando abriu fogo contra uma multidão. Sem maniqueísmos fáceis, sem tomar os caminhos mais confortáveis, com interpretações brilhantes! Filme que não é para todos, mas resulta potente e atual.

“The French Dispatch,” de Wes Anderson. Simples assim: se você gosta de seus filmes, vai ADORAR este. Se não gosta, nem vá. Outro filme, com o mesmo estilo e talento.

“Three Floors”, de Nanni Moretti. Uma das decepções do ano. Três histórias que não se conectam. O diretor italiano não estava inspirado. De certa maneira não teve defensores, mas também não é uma catástrofe. Apenas que, de um diretor como este, se espera muito mais. Fraco...


- “The Divide", da francesa Catherine Corsini. Péssimo. Uma tentativa fracassada de fazer um filme “de festival”. Tenta incluir todas as pautas que “pegam” bem no momento. Como a diretora não tem uma verdade para dizer, fica muito evidente o artificialismo. Inclusive com cenas de uma violência exagerada e interpretações equivocadas. Não perca seu tempo.



-“Benedetta”, de Paul Verhoeven. Freira lésbica e sexual, num mosteiro da Idade Média. Diretor que gosta de polêmicas, Verhoeven tenta causar o mesmo impacto de “Instinto Selvagem”. Os tempos são outros. Um filme que só falta a cartela pedindo: “por favor, me censurem ou proíbam” para gerar polêmica. Não causou nenhuma, nem causará. Fraco. Quase um pornô soft.


-“France”, de Bruno Dumont e “Tout s’est bien passé”, de F. Ozon, são daqueles diretores franceses que estão na cota: “sempre passo em Cannes, independente do filme que eu fizer”. O filme do Ozon é medíocre. Nada de novo, nada a dizer. Se fosse de outro cineasta não passaria sequer nos cinemas. Filme de TV. Dumont ousa um pouco mais. Seu cinema oscila entre filmes quase ascéticos e comédias escatológicas. Podemos dizer que neste filme ele muda um pouco a mão, mas não se decide entre uma sátira aos meios de comunicação, ao culto da fama ou um melodrama. O ponto forte é Léa Seydoux, em sua melhor interpretação.


-“Titane” ficará para um texto seguinte.

Para resumir, uma boa seleção, variada, com alguns filmes muito bons, alguns interessantes e algumas decepções. Neste mundo de notas, eu daria 7 para o “conjunto da obra”!


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