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Crônica do Amor Louco | Marco Ferreri | 1981 | Itália



O diretor italiano Marco Ferreri (1928–1997) era um especialista em filmes carregados de humor ácido, com observações satíricas das convenções sociais e dos costumes sexuais da classe média. Ele, às vezes, era criticado por sua visão aguda e sombria da natureza humana. Misturando comida e sexo, com altas doses de bizarrice, ele levou multidões ao cinema com o seu clássico "A Comilança" (1973), filme que marcou toda uma geração e, até hoje, vem sendo descoberto e cultuado por jovens cinéfilos. Anos mais tarde, ele realizou outro filme que se tornaria um marco do cinema dos anos 80, o embriagante, erótico e visceral "Crônica do Amor Louco" (1981), inspirado no livro "Ereções, Ejaculações, Exibições e Contos Gerais da Loucura Ordinária" (1972), do escritor e poeta maldito americano (nascido na Alemanha) Charles Bukowski. Com o excelente ator americano Ben Gazzara vivendo o poeta e orador Charles Serking (alter ego do próprio Bukowski), o filme começa com ele acordando de ressaca, mas com tempo suficiente para pegar um ônibus de volta a Los Angeles, onde mergulha numa orgia de bebida e depravação sexual. A principal presença feminina da obra é a italiana Ornella Muti, estonteante, no auge da beleza, interpretando a trágica prostituta Cass, com quem Charles Serking se envolve. É ela quem protagoniza uma das cenas mais fortes e inesquecíveis já vistas no cinema (aquela com o enorme alfinete!), num ato de autoflagelo filmado com raro requinte. Para o crítico de cinema Alvaro Machado, "Crônica do Amor Louco" é uma "...obra de equilíbrio matemático em que todo diálogo é precioso, nenhuma sequência é supérflua e da qual se desprende, finalmente, e com volatilidade certeira, a poesia de Bukowski em embriagada veneração pagã pela essência feminina". O filme, relançado pela Pandora Filmes, há mais de 20 anos, em cópia 35 mm restaurada, hoje encontra-se disponível em streaming, para a alegria dos cinéfilos do Brasil. Leia abaixo a crítica completa, da época do relançamento, publicada originalmente na Folha de S. Paulo.




Obra de Ferreri retorna clássica

ALVARO MACHADO especial para a Folha Em cópia nova, quase duas décadas depois de sua estréia, "Crônica do Amor Louco" emerge como clássico inconteste. Em 82, a narrativa do milanês Marco Ferreri (1928-1997) era um tanto ofuscada pela fascinação provocada pela atriz Ornella Muti, no auge da beleza, ou pelo escândalo das cenas em que ela se autoflagela com um enorme alfinete de segurança. Hoje, com os nervos da platéia anestesiados pela banalização da violência, os atos da prostituta Cass contra si mesma já não impressionam tanto. Também amainou a febre Charles Bukowski (1920-1994), o escritor marginal que é fundamento e condutor do filme. Ele é retratado no personagem Charles Serking (Ben Gazzara, preciso), poeta e bêbado em período integral, figura central do livro "Ereções, Ejaculações, Exibições e Contos Gerais da Loucura Ordinária" (72). Distante desses focos de escândalo, "Crônica" se revela a condensação madura de um estilo cinematográfico, obra de equilíbrio matemático em que todo diálogo é precioso, nenhuma sequência é supérflua e da qual se desprende, finalmente, e com volatilidade certeira, a poesia de Bukowski em embriagada veneração pagã pela essência feminina. Essa essência é destilada, nas histórias do filme/livro, pelos mais variados temperamentos de mulheres, como uma coleção de espécimes raros, revoando em torno do prazer sexual à maneira de insetos em volta da lâmpada, elemento substituído aqui pelo dedicado e sempre aceso Serking/Bukowski. Num crescendo, esse mendigo afetivo e "Don Juan passivo" é amparado e sugado pelas "abelhas rainhas" (animal que, aliás, deu título em 63 a um filme do diretor). As fêmeas zumbem e zanzam pela América outsider dos anos 70, pela babilônica Los Angeles ("Lost Angels", como quer o escritor). O cortejo é inaugurado pelo emblema da fatal lolita norte-americana, a "pretty baby" de 13 anos. Seguem-se a valquíria corpulenta, reconfortante misto de dona-de-casa, mãe e prostituta (Judith Drake); a ninfomaníaca devoradora, chave de cadeia (a felliniana Susan Tyrrell); a esposa policial, cobradora do dízimo sexual (Tanya Lopert); a prostituta que é toda pureza decaída, graça rebaixada ao estatuto da carne ("la Muti" em trajes de chinesinha); e, por fim, a verdadeira virgem, oferecendo ao suicida a sua fonte de vida. "Crônica" é o ápice da carreira do diretor iconoclasta que um dia ousou colocar o general Custer na pele de Marcello Mastroianni ("Touchez Pas à la Femme Blanche", 74), autor de mais de 30 títulos entre os anos 60 e 90, vários notáveis e nenhum desprezível. Após essa bela homenagem aos EUA dos destituídos, fracos e perdedores, a carreira do cineasta rumaria ao ocaso. Em boa hora, a distribuidora brasileira Pandora anuncia a compra de outro título de Marco Ferreri em cópia nova, o escatológico "A Comilança" (73). O filme entra em cartaz no decorrer de 2000.


www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2412199915.htm


Assista ao filme no streaming À La Carte belasartesalacarte.com.br/cronica-de-um-amor-louco

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